Até 2028, agentes de inteligência artificial vão tomar sozinhos 15% das decisões do dia a dia no trabalho, e vão estar presentes em um terço das aplicações corporativas, segundo a Gartner. O mesmo instituto, em outro relatório, projeta algo diferente para o mesmo período: mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até 2027, por custo que sobe rápido demais, valor de negócio que não aparece ou controle de risco que nunca foi desenhado.
As duas previsões não se contradizem. Elas descrevem o mesmo momento por dois ângulos: o mercado vai empurrar autonomia para dentro dos processos de decisão mais rápido do que a maioria das empresas vai conseguir sustentar essa autonomia com segurança.
Por que isso acontece agora
O apetite não é surpresa. O mercado de IA agêntica deve saltar de US$ 8,5 bilhões em 2026 para algo entre US$ 35 e 45 bilhões em 2030, segundo a Deloitte. Esse crescimento, por si só, já cria pressão competitiva. Se o concorrente está automatizando decisão, a tentação de acelerar a adoção sem terminar a lição de casa de governança é imediata.
O problema é que “ter um agente de IA” virou quase sinônimo de estar atualizado, independente do que esse agente realmente decide, com que dado ele decide, e quem responde quando ele decide errado.
O que o discurso de mercado ignora
A conversa sobre IA agêntica costuma girar em torno da escolha do agente: qual modelo, qual plataforma, qual fornecedor. É uma discussão real, mas raramente é onde a maioria dos projetos trava.
O gargalo costuma estar antes disso: na estrutura de decisão que envolve o agente. Que critério define quando ele pode agir sozinho e quando precisa de revisão humana. Que dado de entrada sustenta essa decisão quando o volume cresce. E, principalmente, quem é a pessoa ou a área que responde pelo resultado quando o agente erra, porque ele vai errar, mais cedo ou mais tarde, e “o agente decidiu” não é resposta que sobrevive a uma reunião de comitê de risco.
O que diferencia quem sustenta autonomia real
As empresas que conseguem dar mais autonomia a um agente de IA sem virar estatística de cancelamento costumam ter resolvido, antes de escalar, o que a maioria trata como detalhe operacional:
1 – Critério de decisão explícito, não implícito
Definir, por escrito, em que situações o agente decide sozinho e em que situações a decisão precisa passar por uma pessoa, antes de dar autonomia, não depois de um erro caro.
2 – Dado de entrada com qualidade sustentável, não só limpo no piloto
3 – Responsável nomeado pelo resultado, não pelo projeto
Nenhum desses três pontos aparece na demonstração comercial de uma plataforma de IA agêntica. Todos os três aparecem na conta, mais cedo ou mais tarde, geralmente na forma de um projeto cancelado antes de provar valor.
Antes de dar mais autonomia a um agente
Se a sua empresa está avaliando ampliar a autonomia de um agente de IA, vale inverter a pergunta mais comum. Em vez de perguntar “esse agente é bom o suficiente?”, pergunte: “se ele decidir errado amanhã, alguém aqui sabe exatamente quem responde por isso, e a nossa estrutura de dado e decisão está pronta para sustentar essa resposta?”
Não é uma pergunta que trava a adoção de IA agêntica. É a pergunta que separa quem vai estar entre os que decidem mais em 2028 de quem vai virar mais um dos projetos cancelados antes de 2027.
A corrida de mercado não é para “ter um agente de IA”. É para ter a estrutura de decisão, dado e governança que sustentam ele decidindo sozinho.
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Fontes do dado:
– Gartner, “3 Bold and Actionable Predictions for the Future of GenAI”: (15% das decisões do dia a dia até 2028; 33% das aplicações corporativas com IA agêntica, ante menos de 1% em 2024).
– Deloitte, TMT Predictions 2026, nov/2025: (mercado de IA agêntica de US$ 8,5 bi em 2026 para US$ 35-45 bi em 2030).


